Eucaristia & Silêncio

Veja na íntegra a Carta Apostólica do Papa João Paulo II "Spiritus et Sponsa" de 4.12.2003 - um documento importante para a Meditação Cristã hoje!


(Tradução – Roldano Giuntoli)
A Eucaristia e o Silêncio
Dom Laurence Freeman OSB
Palestra na “The School of Prayer”
Arquidiocese de Melbourne
20 de Abril de 2005

De conformidade com antiga sabedoria católica existem três liturgias: a liturgia do paraíso, a liturgia do altar e, entre elas, a liturgia do coração. A plenitude da liturgia deve, portanto, participar de todas as três dimensões que se interpenetram: os reinos de cada lado do vale da morte e do mistério da mais profunda interioridade humana.

Quando falamos do silêncio na Eucaristia estamos falando sobre a Lei dos Espaços Brancos. Certa vez um grupo de estudantes rabínicos questionou o significado de um texto bíblico. Eles apelaram a seu professor que lhes pediu para que lhe mostrassem a página. “O que vocês vêem aqui?” perguntou. “As palavras que estamos discutindo” , eles responderam. “Estas marcas pretas na página”, disse o velho rabi, “contém metade do significado da passagem. A outra metade está nos espaços brancos entre as palavras.” Esta é a margem de silêncio em volta de cada página. Também é a pausa necessária entre respirações, a imobilidade entre pensamentos, o descanso entre os turnos de atividade.

Os lembretes recentes nos ensinamentos papais para o retorno do silêncio à liturgia do altar nos indicam o respeito a esta lei universal. Eles também nos ajudam a recuperar o pleroma da devoção litúrgica em cada um de seus três reinos, distintos, porém sobrepostos, da terra, do paraíso e do coração. Precisamos fazer isso, por haver hoje um crescente número de pessoas para as quais a Eucaristia é um ritual cujo significado tem, há muito tempo, se esvaziado. Existem aqueles que nunca sentiram sua inspiração e consolo. Para eles, não é de nenhum modo um ritual sacramental comunitário que dá sentido à vida. Eles passam inteiramente ao largo de sua afirmação de significação transcendental da existência humana comum, mesmo a mais mundana e mortal. Não está ligado ao significado das alegrias, pesares, esperanças e desapontamentos da vida. Não é alimento para a viagem da labuta diária. Para muitos a Missa pode parecer estranha e inoportuna. Em uma era de uma nova evangelização, deveríamos lembrar do poder da liturgia para comunicar o Evangelho ao mundo profano. Quando comparecem ao funeral de um colega do trabalho ou, à missa de casamento de um amigo, a maneira como é celebrada a Eucaristia pode vir a comunicar a eles algo surpreendente e permanentemente valioso. Pode vir a apresentar uma face do Cristianismo que eles nunca viram antes e que os leve a reconhecer algo previamente ignorado.

Existem ainda, aqueles que uma vez sentiram o mistério e o misticismo da Eucaristia, mas perderam o contato com ela. Talvez, com o amadurecimento de sua espiritualidade, eles foram em busca da interioridade que ela expressa – a graça interiorizante da qual ela é um sinal exteriorizante – e, sentiram que não podiam encontrá-la na igreja. Para estas pessoas, descobrir a forma contemplativa de oração pode reconectá-las à sua sensibilidade sacramental perdida e, trazê-las de volta à igreja. Existem também, aqueles que perseveram na devoção Eucarística regular, freqüentemente para o bem de seus filhos, ou para acompanhar algum laço com o mundo espiritual, mas, que sentem que ela falha depressivamente em se expressar de maneira satisfatória em seu culto dominical. E finalmente, existem aqueles que, a despeito de todas as imperfeições eclesiásticas e individuais, tem a graça de enxergar a eficácia mística e misteriosa da Eucaristia, onde e quando quer que ela seja celebrada.

Como uma dimensão da Eucaristia, o silêncio é valioso e necessário para cada um desses tipos de pessoas. Antes de prosseguir no que pode parecer um tema abstrato e não-existente, do silêncio, deixem-me compartilhar com vocês o que ouvi durante um retiro que ministrei em Sydney. Um assistente pastoral de uma paróquia em Nova Gales do Sul me disse que o padre ali tem feito o que o papa João Paulo II pediu aos padres para fazer, aquilo que é exigido nas Diretrizes da nova edição das Instruções Gerais do Missal Romano. Ele restaurou o silêncio litúrgico no culto de sua paróquia. Fiquei surpreso, não com o fato em si, mas com a dimensão. Eles fazem silêncio após as leituras, cinco minutos após a homilia e, quinze minutos na comunhão. Perguntei como as pessoas reagiram e, fui informado que ninguém saiu e muitos expressaram sua aprovação. No entanto, não desejo reduzir esse tema ao número de minutos de silêncio, por uma boa razão.

Há muitos tipos de celebração Eucarística e o julgamento do Celebrante é crucial. “Experimentaremos agora um período de silêncio”, deve ser interpretado. Porém, acredito seja significativo que uma congregação de paróquia dominical comum seja submetida a esta dimensão de silêncio e, com proveito. Isto pode ser, para alguns, tão surpreendente quanto o fato de que crianças reagem bem à meditação – períodos de prece silenciosa sem imagens ou palavras. Elas o fazem, gostam de fazê-lo e, pedem mais. Ao falarmos da Eucaristia e silêncio estamos de fato considerando a dimensão contemplativa da fé, tal como a lectio, culto e a completude da vida. Como disse o Papa João Paulo II em “Mane Nobiscum Domine”, precisamos progredir a partir da experiência do silêncio litúrgico para a espiritualidade do silêncio – para a dimensão contemplativa da vida. Em outras palavras, tal como a igreja primitiva bem compreendia, o modo como oramos é o modo como vivemos. Mais do que nunca, as pessoas hoje buscam essa dimensão contemplativa e, quando elas vêm à igreja para celebrar Eucaristia elas esperam e, têm o direito de encontrá-la.

Mestre Eckhart tipicamente disse que “não há nada tão igual a Deus quanto o silêncio”. Madre Teresa, que insistia na centralidade de duas horas de oração silenciosa para a vida de suas irmãs apostólicas, tipicamente dizia que “ silêncio é Deus nos falando”. Cada uma dessas afirmações ilustra uma maneira de entender o significado do silêncio. Por que Deus é tão igual ao silêncio? Eckhart não nos diz que Deus gosta do silêncio ou, gosta dos devotos silenciosos, mas, sim que Deus é como o silêncio.

São Bento usa duas palavras que traduzimos como silêncio: quies e silentium. Quies é quieto, silêncio físico, uma ausência de ruído – não bater portas, não arrastar cadeiras, não tossir ou desembrulhar papéis celofane. Quies é aquilo em que esperamos que bons pais treinem seus filhos: uma auto restrição física e modéstia que respeitam a presença de outras pessoas. Quies faz com que o mundo seja habitável e civilizado. Freqüentemente ele faz falta em centros urbanos, onde fundos musicais invadem até elevadores e, são raros os momentos ou locais onde não estamos ao alcance de ruídos produzidos pelas pessoas. Há hoje dispendiosos fones de ouvido que as pessoas usam, não para ouvir música, mas, para se isolarem dos ruídos. Silentium, por outro lado, não é uma ausência de ruído, mas, um estado mental e, uma atitude de consciência voltada para outras pessoas ou, para Deus. É atenção. Quando alguém procura um padre ou um psicólogo, para compartilhar um problema ou uma aflição, o padre sabe que o que ele mais precisa doar é sua atenção. Pode não haver uma solução para o problema e, a maioria de nossas palavras, que esperamos sejam úteis, podem soar como fracassadas banalidades. Ouvirmos de maneira profunda, nos doarmos no ato da atenção, de fato, é não julgarmos, nem procurarmos consertar, ou condenar, mas, sim, amar. Desta maneira, entendemos que não há nada tão igual a Deus como o silêncio, pois Deus é amor.

Comentaremos mais adiante sobre o significado sacrificial da Eucaristia e, sobre como o silêncio o revela. Por ora, gostaria de estabelecer uma ligação entre o ato da atenção e a auto-doação. Filósofos reducionistas acabaram por não ficar com muita margem para valores humanos, porém, ainda assim eles concluem que a ação humana por excelência, que confere valor e sentido à vida, é a auto-doação. Ainda que eles se questionem se isso é mesmo possível. Quando nos doamos, há normalmente uma condição ou requisito. Demandamos reconhecimento, uma recompensa, agradecimento ou algo em troca. Isto invalida a pureza da auto-doação. O Cristão veria a Encarnação como a auto-doação divina e, a vida, morte e ressurreição de Jesus como essa dádiva divina se manifestando em sua humanidade. Uma auto-doação perfeita não transmite ao recipiente o ônus de uma dívida, mas, sim, a capacidade de se doar em troca. Isto é o que a Eucaristia ensina, reinterpreta e nutre. Em toda auto-doação, mesmo quando imperfeita, silenciamos em reverência e admiração. De quanto silêncio precisamos na Eucaristia para que consigamos apreciar esse perfeito sacrifício de amor?

A liturgia, tal como todos os caminhos da oração, é essencialmente atenção. Na Eucaristia treinamos nossa atenção em Deus, através da auto-doação que Jesus fez historicamente e faz continuamente, através do Espírito, tanto no altar, como em nossos corações. Ainda que nossa atenção possa se desviar ao olhar para novos rostos na congregação, ou percorrendo o Missal, a atenção de Jesus a nós direcionada nunca vacila, nem nos condena, ou nos pretere, por nossa distração. Ainda que sejamos infiéis, ele se mantém fiel, por não poder se trair a si mesmo. Ao menos para o crente, este é o inefável mistério da Eucaristia e a mais doce e irresistível atração da presença real.

O silêncio é trabalho, o trabalho da atenção amorosa e seu fruto é um coração repleto de ação de graças. Esta é a ligação entre a idéia de silêncio que Mestre Eckhart fazia, com aquela de Madre Teresa. Não há nada tão igual a Deus como o silêncio, que também é Deus falando conosco. Quando prestamos atenção em Deus, logo nos damos conta que Deus está prestando atenção em nós. Na realidade é a atenção de Deus em nós que nos permite prestar atenção em Deus. É Deus que dispara em nós a primeira centelha de boa vontade, de acordo com o que Cassiano debateu com Agostinho sobre o livre arbítrio. É então que temos que fazer a nossa parte. Tal como nos diz São João, “Isto é o que é o amor: não que tenhamos amado a Deus, mas, sim que Ele nos amou. Nós amamos porque Ele nos amou primeiro”.

Quando celebramos a Eucaristia estamos, de fato, dando o primeiro passo para sermos recolhidos na vida divina. Tal como o filho pródigo, tão logo Deus nos veja chegando de volta, muito antes de sequer voltarmos para casa, Deus vem correndo ao nosso encontro, para nos abraçar e nos dar as boas vindas. Este amor extravagante e temerário é experimentado no coração. Deveria estar refletido na hospitalidade eclesiástica do altar. No silêncio da Eucaristia, saboreamos e entramos no silêncio do Pai, do qual a Palavra emana eternamente.

No ícone da Trindade de Rublev, as três pessoas estão reunidas em volta da Eucaristia. É o trabalho do Espírito que realiza a metamorfose do ordinário em extraordinário. Através do Celebrante e, nele, que representa, porém não substitui o Cristo, a congregação experimenta a fusão e o reaparecimento de pessoas que fazem da Eucaristia um antegozo da liturgia celestial.

O Celebrante se torna um ponto focal fluido para o fluxo de amor que o sacramento libera e nutre. Cristo está no celebrante, que representa as pessoas que são seu Corpo e, por quem o celebrante foi chamado a ministrar. Na Eucaristia, que nos liberta da prisão de nossos egos individuais, há uma perda de identidade e um compartilhamento e redescoberta da individualidade. Estes são o júbilo e as conseqüências que influenciam nossa maneira de viver na sociedade. “Eu neles e tu em mim, possamos ser perfeitamente um”. Ou como na antiga homilia do Sábado Santo: “Levanta-te e vamo-nos daqui; pois tu em mim e eu em ti, juntos somos uma só pessoa”.

Esta é a dimensão mística da Eucaristia que, para muitos devotos dominicais, é o principal alimento espiritual para a sua semana e trabalho diário. Portanto, todo esforço deveria ser feito no sentido de assegurar que este raro e precioso momento seja experimentado plenamente. É importante que a Eucaristia seja celebrada de modo a conceder tempo e criar o espaço para que seu mistério interior se manifeste. Ivan Illich disse que a Encarnação, que possibilita um surpreendente e inteiramente novo desabrochar de amor e conhecimento, também lança uma sombra. É a sombra da institucionalização da caridade e, do controle do espírito. Podemos ainda ter que descarregar muita bagagem acumulada historicamente, como resultado dessa sombra e, por complicarmos o mistério da Eucaristia através de uma abordagem friamente legalista, que freqüentemente insistia mais na obrigação de ir à Missa, do que no privilégio e na graça de tomar parte nela. Quando pensamos demais na Eucaristia como uma obrigação, obscurecemos, na prática, sua essência mística. Será então, improvável, que os silêncios contidos na Missa representem algo além de pausas agradáveis. A Sacrosanctum Concilium nos diz que quando celebrada, a liturgia demanda mais do que a simples observação das leis que governam a validade. Por outro lado, não podemos ir ao outro extremo de impor silêncios compulsórios. De todo modo, o que importa é a qualidade e não a duração do silêncio.

Não podemos tornar compulsórias as recomendações de silêncio e, ainda esperarmos que elas tenham efeito espiritual. Sempre que a abordagem fundamental da Eucaristia for condicionada pelo legalismo ou pelo controle excessivo, a Eucaristia e o silêncio parecerão incompatíveis. Momentos de silêncio ou, longos períodos de silêncio, parecerão impraticáveis, pretensiosos e artificiais ou uma imposição em uma congregação que, de todo modo, é boa o suficiente para vir, em primeiro lugar, e não deveria ser sujeitada a algo que não lhe é familiar e que prolonga sua hora na igreja. Os silêncios na Eucaristia deveriam, ao contrário, surgir a partir da experiência da exploração por parte de toda a comunidade, da profundidade mística. Porém, como toda a própria Eucaristia, estes silêncios necessitam a orientação do celebrante em cooperação com a equipe litúrgica da comunidade. Certamente, é no seminário que a dimensão contemplativa da prece precisa ser nutrida, se esperamos que os futuros celebrantes tenham essa sensibilidade para o silêncio litúrgico.

Sacerdotes, freqüentemente, têm medo ou suspeita acerca do silêncio no altar, assim como entrevistadores de rádio. Recentemente soube de uma entrevista de rádio com o Arcebispo Rowan Williams, na BBC, sobre as atuais controvérsias da Igreja Anglicana. Ao final, fora do combinado, o entrevistador o surpreendeu com uma pergunta sobre o Iraque questionando-o quanto a ser, aquela, uma guerra moralmente justificável. O Arcebispo fez uma pausa de uns bons dezenove segundos, uma eternidade no ar, e o entrevistador quebrou o silêncio para dizer que, obviamente, ele estava pensando na resposta por um longo tempo. Sem constrangimento, o Arcebispo respondeu que, ao ser questionado sobre um assunto tão importante, ele precisava de tempo para considerar sua resposta e, que um tema de tal sensibilidade moral demandava mais do que um lapso de tempo. O entrevistador ficou surpreso e sinceramente impressionado. Ele quis manter o silêncio na gravação que iria ao ar, mas o editor a cortou.

O medo do silêncio na Eucaristia geralmente afeta mais o oficiante do que a congregação. Será que ao abrir os olhos, após um longo silêncio, ele encontrará a igreja vazia? Será o medo de perder o controle? Medo do silêncio é freqüentemente o medo da ausência, o vazio que tememos, o crescente pavor de não termos nada em que pensar. Ou, também, talvez se dê conta de que nosso treinamento não nos tenha preparado para a outra metade, a metade mística da Eucaristia, a dimensão apofática que está em todos os aspectos da vida espiritual?

O Silêncio restaura e reconhece a falta da dimensão apofática, contemplativa. A Eucaristia só pode ser encarada como a fonte e o cume da vida da Igreja, se sua celebração representa esse paradoxo do duplo mistério catafático e apofático, o revelado e o oculto, que se encontra em toda vida Cristã, devido ao próprio fato da dupla natureza da pessoa de Jesus.

“Moisés adentrou a espessa escuridão em que Deus estava”. No entanto, igualmente, “Deus é luz e, nele não há a mínima escuridão”. A linguagem dos místicos expressa esse paradoxo, assim como o faz o próprio cânone da missa: escuridão luminosa do mistério divino, o silêncio do qual o Verbo é pronunciado e desce para a encarnação, a imobilidade no centro de toda ação. Silêncio pode ser entendido como dizendo o que Deus não é o caminho apofático. Todavia, também afirma poderosamente o que dizemos de Deus quando falamos. Silêncio renova a linguagem, restaura a precisão e o sentido de textos familiares, a que freqüentemente nos referimos. Sem silêncio, mesmo palavras sagradas podem se tornar ruído, tolice. Silêncio na Eucaristia não é ameaça de nulidade ou denota ausência, mas expõe presença e convida à reciprocidade.

Já foram identificadas as partes da Eucaristia em que silêncios são especialmente úteis e potencializadores. Muitos celebrantes começam com alguns momentos de silêncio na sacristia, junto aos acólitos e leitores, antes de iniciar. Sempre que o celebrante invoca a oração da comunidade, Oremos, demanda um momento de silêncio antes que sejam faladas as palavras da Coleta, de modo a coletar, de todas as pessoas, as preces silenciosas. O Rito Penitencial convida então à reflexão interior de modo a nos prepararmos para experimentar a Eucaristia como uma celebração do perdão e da cura de nossas vidas imperfeitas. As Leituras, em especial, pedem pausas silenciosas, antes que o Salmo Responsorial ou a Aclamação ao Evangelho nos envolvam. Freqüentemente, quando houver a observância do silêncio durante a Liturgia da Palavra, isso também incentivará um breve comentário sobre alguma passagem difícil ou obscura, que de outro modo escaparia ao entendimento da comunidade e, algumas vezes, do próprio celebrante. Leituras devem ser proferidas com preparação, atenção devotada e silêncio meditativo que permitam que a Palavra de Deus toque os corações e mentes das pessoas (Mane Nobiscum Domine).

Pregadores católicos são, em geral, muito acanhados quanto à duração das homilias, ao contrário dos Ministros protestantes, dos quais se espera um discurso acalorado e longo o suficiente para justificar o pagamento das pessoas. O estilo mais modulado da maioria dos Pregadores católicos faz com que um período subseqüente de reflexão silenciosa seja ainda mais adequado. Isto mostra à congregação, o respeito de partir do pressuposto de que eles ouviram inteligentemente e gostariam de tempo de pensar a respeito, mesmo que não lhes seja ainda permitido responder. As Instruções Gerais não recomendam um tempo de silêncio durante ou ao final das Intercessões, mas isto acontece, como prática geral: rezemos agora por alguns momentos no silêncio de nossos corações. Isto permite à comunidade, a bem de quem as intercessões foram oferecidas, que adicione silenciosamente suas próprias orações, de modo que o celebrante possa concluir com palavras tais como, Senhor conheces nossas necessidades mesmo antes de pedirmos, por isso te oferecemos todas as nossas preces. O Papa João Paulo II escreveu que Todas as formas de oração são construídas sobre a fundação do silêncio.

A Fração do Pão é um momento muito místico e um momento de silêncio ali, é natural. No entanto, o período de silêncio mais necessário e significativo da Eucaristia, é claro, é o que se segue à Comunhão. Se toda a Eucaristia é o culmen et fons da Igreja, seguramente este momento é seu epicentro místico. Todavia, ele é, em geral, encoberto sem um momento de silêncio, exceto aquele que ocorre entre cantos ou na purificação do cálice. Este pode ser o estágio em que o celebrante se preocupa em estar segurando as pessoas por tempo demais, as crianças podem estar se tornando impacientes e outra comunidade pode já estar à espera. Agora, acima de tudo, precisamos lembrar que silêncio não é meramente a ausência de ruído, mas, o espírito de atenção amorosa.

Estive sentado em silêncio prolongado, após a comunhão da Missa Dominical na paróquia de nosso Mosteiro no subúrbio de Londres, enquanto havia ruídos de um coro de bebês chorões, de crianças impacientes. Isto não afetou significativamente o silêncio. Os pais e outros apreciaram isso e, muitas crianças, senão todas, se aquietaram. E quando concluímos com a Oração que se segue à Comunhão, havia um sentimento, não de alívio por termos terminado, mas, de agradecimento e renovação. O celebrante tem que se controlar ao início de tais silêncios e, é claro, preparar a comunidade para isso. É necessário um período significativo de silêncio, não uma rápida pausa. Pode ser útil contarmos com uma determinação do tempo, marcado no início e no fim, por um gongo ou sino.

Uma vez que a experiência do silêncio litúrgico tenha se enraizado numa comunidade, isso também produzirá um efeito no local onde acontece a Liturgia. Richard Giles, o Deão Anglicano da Filadélfia, é um pioneiro na revisão dos princípios tradicionais nos projetos de locais sagrados. Seu livro Repitching the Tent é uma visão estimulante do espaço físico de culto. Depois de escrevê-lo, ele se deu conta de que as formas de celebração da Eucaristia são influenciadas pelo espaço em que são celebradas e seu mais recente livro Uncommon Worship é um companheiro necessário ao primeiro.

Silêncio na Eucaristia não privatiza a Liturgia, como alguns podem temer. Isto ocorria freqüentemente no Rito Tridentino. As pessoas sentiam que algo muito misterioso e sagrado estava acontecendo, mas isso não as envolvia pessoalmente, de modo que elas recitavam suas preces, o seu rosário, enquanto o celebrante seguia com seu papel. Por outro lado, silêncio, entendido como experiência litúrgica, aproxima a comunidade e unifica a atenção de todos, de modo que juntos, em mente e coração, eles possam ouvir a Palavra e compartilhar o Mistério. Santo Inácio de Antioquia dizia que se não pudermos entender o silêncio de Cristo, também não poderemos entender suas palavras. Só poderemos entender seu silêncio, silenciando a nós mesmos. Ao fazermos isso juntos, experimentamos o mistério do silêncio que constrói comunidade.

Para concluir, gostaria de relembrar a significativa frase do Papa João Paulo II, a que me referi antes. Tendo enfatizado a importância do silêncio na Eucaristia, ele explica que não se trata de um silêncio artificial de auto-controle. A partir da experiência do silêncio litúrgico, precisamos progredir para a “espiritualidade do silêncio”, para a dimensão contemplativa da vida. São Francisco, certa feita, exortou seus seguidores a pregar o evangelho em todas as ocasiões, a todos que encontrassem. Quando absolutamente necessário, ele adicionou, “usem palavras”. Acredito que ele se referia não apenas ao silêncio, mas ao silente ou implícito testemunho da vida de cada um.

O elo entre a Eucaristia e o modo que vivemos é crucial para qualquer entendimento ou experiência de seu valor e significado. Se celebramos a Eucaristia apenas como uma obrigação eclesiástica ou, como uma reunião de amigos, ela terá pouca influência na melhor conformação de nossas vidas ao Evangelho. A menos que tenhamos chegado juntos a um nível profundo em sua celebração, as palavras de despedida Vamos em Paz poderão significar “vamos em pedaços” (conforme o trocadilho na Inglesa: “Go in Peace – Go in pieces”…, assim como provavelmente chegamos…

O Silêncio promove o mais profundo e completo significado da Eucaristia, níveis pós-verbais da eficácia do sacramento que se abrem em nossas vidas. Isto significa que saberemos que, ao compartilhar simbolicamente juntos os frutos da terra, poderemos melhor servir o Reino de justiça em nossas vidas e trabalho. Todos tomamos a mesma quantidade de pão e de vinho. “Havia o suficiente para todos”, caso o sacristão tenha feito bem seu trabalho. Portanto, para nossas vidas serem Eucarísticas, não deveríamos trabalhar para a justa distribuição da riqueza, o socorro aos oprimidos e a assistência aos marginalizados? A profundidade mística da Eucaristia possui implicações políticas diretas. Os arcebispos Thomas Becket e Oscar Romero não foram assassinados no momento silente da consagração?

O Silêncio Eucarístico também nos remete ao real significado da paz, como o fruto da não-violência. Paz não é apenas o aconchego de uma fuga do mercado, assim como o silêncio não é apenas ausência de ruído. O sacrifício da Missa nos faz lembrar de tudo o que Rene Girard, recentemente, tem nos ajudado a enxergar na relação entre a violência e o sagrado. Aparentemente, nos primórdios da Igreja Romana, antes de Constantino, muitos sacerdotes pagãos pediram para ser batizados. Os pagãos não se viam a si mesmos como ministros religiosos, mas sim, como servidores civis, realizando os sacrifícios recomendados nos altares Romanos, de acordo com os rituais recomendados. Se eles errassem as palavras eles tinham que voltar ao início e, começar novamente. O que importava era o oferecimento do sangue sacrifical e as palavras e gestos escrupulosamente corretos. Os Cristãos, entretanto, entenderam que o perfeito sacrifício de Cristo, celebrado na Eucaristia, era muito diferente dos rituais pagãos. A Eucaristia era o auto-sacrifício, em amor, que acabava com o sacrifício como meio de obter o favor de Deus, o que na realidade era um meio de controlar a violência da comunidade, através da oferta de bodes expiatórios. A Cruz é re-apresentada no altar de uma comunidade Cristã e, sinaliza o final do ciclo humano da violência. “É a misericórdia, não o sacrifício, o que Eu quero”, tal como disse Oséias 6,6 e, foi citado por Jesus (Mt 9,13). Caso celebremos a Eucaristia sem o necessário silêncio, para respeitar e revelar sua profundidade mística, será fácil interpretá-la erroneamente do ponto de vista teológico: enxergá-la como um rito sacrifical para aplacar um Deus irado. O Silêncio na Eucaristia, quando entendido espiritualmente e não legalisticamente, expõe o poder do sacramento no fortalecimento da justiça e da paz. Paz nunca poderá ser obtida pela violência. Não há ira ou violência em Deus.

A última lição e benção do Papa João Paulo II, da sua janela no Vaticano, foi silenciosa. É significativo que, assim como seus últimos ensinamentos enfatizaram o caráter sagrado da vida, o caráter inaceitável da pena de morte e a imoralidade da guerra do Iraque, ele também ressaltou o significado místico da Eucaristia. Em seus últimos pensamentos e pronunciamentos, torna-se transparente a ponte entre a contemplação e a não-violência. De fato, não são estes os pilares gêmeos dos ensinamentos de Jesus e da mensagem eterna de seu Evangelho?

Desse modo, as implicações do silêncio na Eucaristia, nos levam ao coração de nossa fé e à fronteira do desenvolvimento da evangelização contemporânea. Não se trata apenas do que se passa à hora da Missa. Trata-se de expressar o que é real, no centro de nosso ser e, no tecido de nossa vida diária e trabalho. Acredito deva ser por isso, que o Papa João Paulo conectou a experiência do silêncio litúrgico, à renovação contemplativa da Igreja. Em um mundo crescentemente fraturado e esfrangalhado por ruído e estresse, ele reconheceu a necessidade que a Igreja tem de recuperar suas mais profundas tradições contemplativas e de ensinar a partir desses caminhos de prece contemplativa. É vital a redescoberta do valor do silêncio, ele disse.

John Main, falecido em 1982, também o havia enxergado: o maior desafio das pessoas modernas, ele disse, está em redescobrir o valor e o significado do silêncio. John Main, em seus escritos sobre a Eucaristia, também entendeu que, para pessoas modernas, faz-se necessário recobrar a dimensão contemplativa da prece de modo a poder experimentar o significado completo dos sacramentos. A visão de Papa João Paulo II sobre silêncio litúrgico expandiu-se em sua compreensão da espiritualidade contemporânea. A disseminação, mesmo fora do culto Cristão, de práticas meditativas que priorizam o recolhimento não é acidental. Por que não ousar pedagogicamente uma educação específica no silêncio, dentro das coordenadas da experiência Cristã? (Spiritus et Sponsa). Aqui, ele se refere ao treinamento na arte de orar, ao qual ele freqüentemente exortava. O ensinamento da prece contemplativa na paróquia ou, em nível diocesano, é um corolário natural e, talvez inevitável, ao silêncio litúrgico. Temos que começar de algum modo: com silêncio após a comunhão, ou com grupos de meditação na paróquia. Por ser a Igreja um corpo vivente, com vida espiritual, seus pastores não precisam se preocupar demais com análise de sistemas. Eles devem simplesmente orar e incentivar as pessoas a orar cada vez mais profundamente. Em nossos tempos, pode ser mais ousado aplicar isso à educação religiosa e à formação espiritual de crianças e jovens. Esta ‘ousadia pedagógica’ já começou, tal como na diocese de Townsville em Qweensland e em muitas escolas e famílias Católicas ao redor do globo, onde crianças estão sendo apresentadas à prática da Meditação Cristã.

Um silêncio vivificado após as leituras, homilia e comunhão soerguerá, ou, melhor talvez, identificará, a fome mais profunda que está no coração de nossa Igreja e de nosso mundo. Aprender a orar no nível contemplativo, nos ensinará a viver melhor no Espírito, pois o modo como oramos é o modo como vivemos e, o modo como oramos é o modo como celebramos a Eucaristia. Esta fome por contemplação é, portanto, nossa maior esperança. É vital redescobrirmos o valor do silêncio.

Dom Laurence Freeman OSB

1 comentários:

Lucilrne Ferreira Da silva disse...

Que riqueza de texto meu Deus! Quero ficar mais em silêncio.